terça-feira, 5 de maio de 2009

E se...

Fosse tudo assim ? Não é uma ideia tão inaceitável. Pelo menos nunca ninguém me provou o contrário. É, uma teoria! E faz muito sentido. Pensa comigo: a terra é o olho de um menino gigante, (gigante mesmo!) que vive num lugar muito escuro. Os planetas da via láctea trabalham como um cérebro, o sol como a memória do gigante, e as outras galáxias são o cerebelo, bolbo, tálamo (e todas aquelas parafernalhas que a gente aprende na escola e que eu só usei na minha vida pra escrever esse texto). O olho desse gigante é um tanto quanto diferente do nosso: ele roda completamente. É o movimento de rotação da Terra. Temos como ponto de referência o Brasil. Quando este está na mesma posição da pupila, virada para o meio externo, é a nossa noite. Já o Japão, do outro lado, está vivendo seu dia, afinal ele está virado para o meio interno, e como havia dito antes, o sol (que se compara a nossa memória) está dentro da cabeça do gigante.
- É, sai da mesmice. Mas...
Ainda tem mais: no planeta do gigante, todas as pessoas têm um olho só (inclusive o próprio). Todos os cidadãos têm uma obrigação de ter um planeta que comande a visão. Esses todos vivem em um planeta que também é um olho de alguém maior ainda que eles, mas disso a gente não tem muita certeza, afinal é uma escala que nós, humanos, não conseguimos alcançar (isso é temporário).
- Oi?
Só que o gigante ainda tá sem nome... alguma ideia?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

ABC

Abri os olhos. Abasteci meus pulmões. Abandonei minha cama para me encaminhar ao banheiro. Através do espelho a minha cara amassada não se diferenciava dos outros dias. Abomino o fato de não me sentir diferente a cada dia. Agora já estava sentada, tomando meu café da manhã. Abri meu jornal de todo o dia, e numa crônica me deparo com a seguinte frase: “A Bossa Nova é a mesma coisa, uma música easy listening, que toca em loja de departamento quando a gente vai comprar uma meia.” – Alguém disse. Afastei o jornal dos olhos. Absuuuuuuuuuuuurdo! Aborrecida deixei o jornal de lado. Aquilo nunca mais iria se repetir. A partir daquele dia o café da manhã seria presenciado apenas por mim, meu chocolate quente e uma torrada, sem crônicas, sem jornais para me dar angústia. (Agonizei muito? Acho que sim).
Bom, meu dia segue. Babaquice nenhuma me desestruturaria. Baseada na minha agenda, não tenho nada pra fazer até o almoço. Basicamente nada né, mas a gente sempre arruma uma função. Basta ficar em casa que essa função surge, então resolvi caminhar pelo bairro. Botei uma roupa qualquer, e tomei meu rumo. “Bem vindo”, estava escrito na porta de um lugar que sempre fora abandonado na minha esquina. Bastante movimentado, resolvi conhecer. Bem sucedida a idéia. Beleza inesperada me chamou atenção. Brilhava numa mesa uma senhora.
Chapéu, jornal, casaco pesado, e por baixo um vestido aos pés, semelhante a um personagem que tinha sido tirado de outra época e colocado ali na minha frente. Cena que eu jamais vou esquecer. Cadeira, a primeira que eu vi na frente. Como só eu percebia a beleza daquilo? Calmamente, ela afastou o jornal dos olhos enquanto lia uma crônica (provavelmente tinha chegado à citação da Bossa Nova). Certamente minha tarde foi “perdida” ali, admirando aquela mesa. Com a necessidade de guardar aquilo pra sempre, a cena foi registrada na minha memória...

Daí...

Batalha Naval

Uma casa, com um quarto simples. Simples não, quer dizer, depende do seu ponto de vista e da sua classe social. Era um quarto de uma menina, classe média alta, com tudo que ela já desejou. Aqueles ursinhos que você sempre quis ter e depois de uma semana você já nem lembra que existe, aqueles brindes de festas que vão sempre pra ultima gaveta, computador, um armário que daria pra guardar roupa pro resto da sua vida. simples? pra uns, normal. dentro desse quarto, vivia Lara.
De longe era normal, como qualquer outra menina por volta dos seus 15 anos. Mas algo a assustava, não sei se assustava mais a ela do que as outras meninas dessa idade.. pelo menos ela era a que mais se importava com isso, ou era o que ela achava. Lara tinha medo de crescer. Encarar a vida sozinha não devia ser fácil, tudo em cima de você, tudo que seus pais sempre te deram de mão beijada de repente desaparece e sua vida vira um campo de batalha! Você não sabe quando vai ganhar, não sabe nem se vai sair vitorioso.
No início, deixa de prestar atenção nas estrelas, de se perguntar sobre as ondas do mar, não se interessa mais em saber quantos grãos de areia tem ali na palma da sua mão. E com o tempo, você não pára e pensa...
Você pensa e pára, pára de olhar pros lados, de ver o mundo com aqueles olhos inocentes, e passa a fazer parte daquela guerra que você nunca desejou entrar, mas agora já não tem como sair. É um ciclo viciante que você provavelmente vai presenciar comigo. Soa como um convite? Você acha?
Prazer, Lara.
Olhei pra platéia. Nada, era um nada. Pra mim era tudo, sempre foi tudo. Ninguém ali, o escuro. Um foco de luz no palco, mas só um, o que bastava para não enxergar mais nada do lado de lá. Uma chama. Parecia um isqueiro aceso, aceso por alguém e do nada. Um alguém que não estava lá. O nome do ninguém era George, um antigo amigo que tinha costume de acender um isqueiro enquanto eu estava no palco para que eu pudesse achá-lo enquanto estivesse ali em cima, concentrada no meu palco. Digo “antigo amigo” porque ele se foi, mas naquele momento ele tava ali, de corpo e alma pra mim. e eu estava ali, de alma pra ele. O anjo se foi cedo. A peça dele acabou antes do fim do primeiro ato. Mas é o ciclo da vida. Nascer, pensar, crescer, viver, viver, viver, e dormir no fim. E é claro, conseguir provar que é além do que parece ser, que já não vê mais as coisas por fora e agora já vê por dentro também. George foi aprovado cedo, e então ele viajou. E vou te contar que agora ele tá no paraíso... água de coco todo dia, amigos por perto... o sol bate sempre lá, a chuva vem as vezes, mas do que importa? Ele é feliz. Já achou um lugar sem guerra, sem fome, sem absurdos, sem alienação. Ele sim sabe como aproveitar a ... vida !?

Para L.M.M.

Se essa rua fosse minha...

"A viatura foi chegando devagar, e de repente, de repente resolveu
me parar. Um dos caras saiu de lá de dentro já dizendo: “ai
compadre, você perdeu, se eu tiver que procurar você ta fudido!
acho melhor você ir deixando esse flagrante comigo.” No início eram
três, depois vieram mais quatro, agora eram sete samurais da
extorção, vasculhando meu carro, metendo a mão no meu bolso,
cheirando a minha mão."
 
É esse tipo de poesia que encanta agora. Voltando um tempo atrás,
não muito tempo... mas o bastante pra garota de Ipanema voltar a
passar, o bastante pro Elvis suplicar um amor com ternura, o
bastante pra beatlemania ser sinônimo de histeria, o bastante pra
relembrar os tempos de sonhos. Circo Voador no Arpoador, o forró na
Lapa, e o verão da lata ? Lendas. Lendas que sempre vamos ouvir com
uma certa vontade de querer mudar tudo, de perceber que nascemos
na época errada. Ter a bossa nova como trilha sonora de uma vida é
um privilégio para aqueles que agora têm que encarar a vida com essa
nova geração que se encanta com um quadrilátero regular. Não sei se
isso está causando encantamento, mas os encantamentos daquele
outro mundo parecem melhores. Alguns, poucos conseguem se
conscientizar que a alienação não leva ninguém aos melhores
prazeres da sua vida. E dentre esses poucos, apenas alguns não
estão preocupados com as novas regras da geração atual, que na
verdade não eram pra ser regras mas já estão na lista dos “preceitos
a seguir”. E a mídia... Ah a mídia! Pra que ela existe ? O objetivo dela
é por a consciência de muitos pra dormir, ninando, dando benção, beijo
de boa noite e cobrindo a moralidade.
Então vamos ? Vamos rearmar o Circo Voador no Arpoador, ressuscitar
alguns Elvis por aí, dar adeus às águas de março, e ver mais vezes o
pôr do sol. Vamos nos viciar nos prazeres de verdade.